Paulo Carneiro: 'Fui vidraça, agora eu quero é ser badogue'
Ex-presidente do Vitória solta o verbo, conta que tem o sonho de ser prefeito de Salvador e que não pretende voltar a dirigir o rubro-negro!
Matheus Morais _ Bahia 247 – Do topo de seus quase dois metros de altura, Paulo Carneiro, ex-dirigente do Vitória e do Bahia fala tranquilamente sobre qualquer assunto. Sempre com a voz pausada e a língua afiada, ele dispara sua metralhadora giratória, aperta o gatilho e não poupa quase ninguém! Como ele mesmo diz: "Sou homem de falar abertamente, sou polêmico mesmo, se ninguém falar eu falo e pronto!".
Bahia 247 – Seu pai foi dirigente e jogador do Vitória, sempre foi torcedor rubro-negro, mas quando você decidiu entrar de vez no mundo do futebol?
Paulo Carneiro - Minha relação com o futebol é familiar, eu sempre estive envolvido com esporte, gostava de praticar esporte, jogava futebol direitinho, sempre fui rubro-negro. Ouvia as histórias de meu pai, observava, lia, mas a primeira vez que eu me apresentei ao Vitória foi como engenheiro mecânico, fui colocar uma bomba num poço, porque o clube tinha 90 anos e não tinha água, o pessoal de Canabrava roubava as bombas, as esquadrias, o Vitória não tinha nada, era só aquela área do lixão e o estádio inacabado que foi inaugurado em 1986 sem a menor condição. Naquele tempo, o clube procurava mais presidente do que treinador, o cara assumia e todo mundo já queria derrubar, aí em 1987 teve uma crise institucional dentro do Vitória, Ademar Lemos substituiu Carlos Paulo através de uma manobra, depois ele fez um mandato próprio, aí eu já era seu diretor e vice-presidente de futebol.
247 – Quando você assumiu o Vitória qual era a situação financeira do clube?
PC – O Vitória era um clube pequeno, que não existia, não tinha como estar quebrado, porém, tinha algumas dívidas, uma dívida trabalhista com um médico chamado Fernando Baraúna; que dizia que quando o Vitória pagasse a ele o clube ia fechar, dividimos em sete vezes, paguei tudo (risos). Depois fomos reerguendo o clube e gerando dívidas, obviamente, ninguém constroi sem gerar dívidas. No ano 2000, quando as ações do Vitória foram vendidas por 6 milhões de dólares, nós usamos o dinheiro para zerar as dívidas do clube, em 12 de junho do mesmo ano não devíamos a mais ninguém, e esse foi um grande legado. Eu encontrei o Vitória com 11% da torcida da Bahia, a gente ficava num cantinho na Fonte Nova, deixei com 42%, muito perto da torcida do Bahia.
'O Vitória hoje não é mais uma organização esportiva'
247 - O diretor da divisão de base do Vitória na época (atualmente no Bahia), Newton Mota, lhe ajudou durante sua gestão?
PC – Muito, me ajudou muito, é um profissional de futebol com muita sensibilidade, que trabalha muito, mas tem deficiências na gestão, porque gasta demais, se for controlado e bem controlado é um dos melhores do Brasil. Sempre tivemos uma boa relação, tanto que levei ele pro Bahia quando fui pra lá, ele é tricolor doente!
247 – O Vitória sempre teve muitos conselheiros que eram políticos, esses caras colocavam dinheiro dentro do Vitória?
PC - Não, nunca! Ninguém quer investir dinheiro em futebol, isso tudo é uma grande conversa fiada, o clube precisa ter parceiros, mas nunca pedir dinheiro a ninguém, isso é amadorismo puro. O Vitória viveu muitos anos com a ajuda de mecenas, dizem que Alexi Portela (atual presidente do clube) é o último deles, porque ele colocou dinheiro dele dentro do clube, mas soube que já tirou tudo. Agora, eu tenho dinheiro lá dentro e ele nunca me pagou, o Vitória me deve 20 salários do tempo do Vitória/SA, eu tinha um contrato, movi uma dívida trabalhista contra o clube.
247- Falando em conselheiro, por que o deputado federal, e ex-presidente do Vitória, José Rocha, não gosta de você?
PC – Porque ele nunca reconheceu meu trabalho à frente do Vitória. Rocha se acha o construtor do Barradão, eu acho até que ele é; inclusive reconheço isso no prefácio do livro Barradão, alegria emoção e Vitória. Com a minha saída do Vitória, nós nos afastamos. No processo político, Rocha foi contra mim, se ele é contra mim eu sou contra ele, mas pessoalmente nunca tivemos nada um contra o outro.
247 - O que você fez no Vitória que o presidente Alexi Portela não faz hoje em dia?
PC - Eu tinha mentalidade profissional, sem amigos no clube, sem abnegados, com planejamento, estratégia, cobrança de metas. O Vitória hoje não é mais uma organização esportiva.
247- Você sabe quanto em dinheiro Alexi colocou no Vitória?
PC - Entre tirar e botar, ele deve ter colocado uns 10 milhões de reais, não deixou nada, no giro deve ter sido isso.
'Fui vidraça durante muito tempo, agora eu quero mais é ser badogue'!
247 – Ele (Alexi Portela) é verdadeiro e transparente em suas ações dentro do clube?
PC – Não sei. Acho que ele é rubro-negro, bem intencionado, mas a maneira dele dirigir o clube é equivocada. Nós erámos muito amigos, ele trazia uva pra mim de Juazeiro, ia na minha sala pessoalmente levar, eu fazia por merecer esta amizade. O cara que foi mais sacana comigo no clube foi Ademar Lemos, que assumiu em meu lugar e não teve coragem de enfrentar Rodolpho Tourinho e companhia, que eram meus inimigos políticos. Ademar com essa carinha mansa foi o escroto na história, ele que me jogou às feras, Alexi foi um fraco, que não teve coragem de bater de frente com Ademar, mas nos bastidores ele diz aos amigos que eu fui o melhor presidente do clube, na mídia ele não diz e nunca vai dizer. Ao contrário, ele foi numa rádio me chamar de ladrão, dizer que eu dilapidei o patrimônio do clube, ele é o pior dos piores. Alexi é permissivo, dá informações privilegiadas a alguns radialistas, ele tira a identidade do clube, isso deve revoltar certos setores da imprensa. O Vitória hoje parece festa de axé music, todo mundo fala, todo mundo grita e ninguém se entende!
247 – Tem gente dentro do clube que não gosta de Alexi?
PC - Deve ter gente que gosta e que não gosta, o Vitória é um clube cheio de invejosos, vaidosos, cheio de traíra, deve ter gente perto dele que fala mal dele, disso eu não tenho dúvidas.
247 – Por que Jorge Sampaio (ex - vice presidente do Vitória) saiu do clube?
PC - Eu acho é que o pessoal do Vitória tem questionamentos sobre a gestão de Jorge no clube, ninguém fala claro, eu falo, ele foi afastado do Vitória por improbidade, dizem que tem auditoria, relatório, que ele usou mal o cartão corporativo do clube, que ele foi mau gestor... Jorge não sabe nada de bola, não é bom comentarista esportivo, num circo ele se sairia melhor, o negócio dele é música, axé music, disso ele entende!
247 – Algumas pessoas dizem que você chegou ao Vitória com uma Brasília velha e saiu com uma Hilux zero...
PC – Eu nunca tive uma Brasília, mesmo porque minhas pernas não cabem dentro de uma (risos)! Eu tinha um Maverick, em 1978, 12 anos antes de eu entrar no Vitória... Fui promovido numa empresa que eu trabalhava e construí um prédio em 1980, onde mora minha família, num apartamento com quatro quartos, duas suítes, isso nove anos antes de entrar no clube, eu já tinha terreno em Encontro das Águas de quatro mil metros quadrados, um terreno em Barra Grande, na Ilha de Itaparica, essas eram as minhas "Brasílias". Tudo uma grande palhaçada daqueles que não gostam de mim e usam a mídia para me atingir e engabelar os ouvintes. Hoje meu carro é uma BMW ano 2003!
247 – Do que você vive hoje, quais suas fontes de renda?
PC - Eu tenho uma distribuidora de cosméticos que é administrada por minha ex-mulher há sete anos, que vem crescendo a cada dia, a cada ano, meu patrimônio é pequeno, tenho uma casa em Busca Vida que vale um bom dinheiro, construída num terreno que comprei com meu dinheiro de engenheiro, antes de entrar no Vitória.
247 - Você acha que a torcida do Vitória não gosta de você?
PC – Não! Isso foi uma mentira plantada por uma parte da imprensa que não gosta de mim, repetiram tantas vezes que eu não presto e uma parte da torcida acabou acreditando.
247 – Em 16 anos de Vitória você fez mais amigos ou inimigos?
PC – Não fiz amigos, nenhum, percebi claramente isso. Sinval Vieira não é meu amigo, é meu conhecido, temos uma relação pessoal muito boa, mas amigo mesmo só Geraldo Del Rey que é advogado do Vitória, só! Todos me traíram, ninguém nunca me ligou pra saber se eu estava bem quando sai de lá. Fiquei muito deprimido quando sai do clube, foi uma fase difícil, mas voltei a ser torcedor, hoje eu posso esculhambar presidente, jogador e quem eu quiser, fui vidraça durante muito tempo, agora eu quero mais é ser badogue!
'ACM me chamou pra ser candidato a vice-prefeito de Salvador. Eu não quis'
247 – Paulo Carneiro pensa em voltar ao Vitória?
PC – Não! Eu quero é participar do processo político do clube, mas não quero voltar, posso fazer um presidente lá dentro, mas não quero mais ser presidente, se o Vitória precisar de mim, estarei aqui. Era muito cansativo, eu me desgastei muito, vivia dentro do clube, não tinha vida pessoal, almoçava com o elenco, ia pro estádio no ônibus com os jogadores, eu não tive finais de semana, não acompanhei o crescimento de meus filhos pra cuidar de um clube, e disso eu me arrependo. Hoje eu sou mais feliz, adoro minha terra, adoro Salvador. Tá aí, eu queria ser prefeito de Salvador, mas é um sonho inatingível! (risos)
247 – Por que você aceitou entrar na política?
PC – Pro Vitória ter representatividade! Nunca gostei de política, não gosto da política partidária, eu era o deputado que mais faltava na Assembleia Legislativa, meu lugar de trabalhar era no Vitória, entrei na política para tirar o lixo que tinha na Toca do Leão, acabei tirando, consegui tirar. Mas, eu posso voltar pra política, porque acho que fiquei devendo, tinha formação e preparo para fazer muito mais, como vereador e deputado.
247 – Como era sua relação com Antonio Carlos Magalhães?
PC – Era ótima! Foi um homem que eu admirei, que tinha um lado só, uma palavra só, ele gostava do Vitória, colocou o Vitória no Clube dos 13... Eu era muito amigo de Luís Eduardo Magalhães, e muita gente não sabe, mas uma vez ACM me chamou pra ser candidato a vice-prefeito de Salvador, eu que não quis!
247 – Como foi que surgiu o convite pra você ir trabalhar no Bahia?
PC - Um belo dia recebi uma ligação de Rui Accioly (presidente do conselho do Bahia) perguntando se eu topava assumir o desafio de voltar ao futebol. Quando sai do Vitória fui tocar minha distribuidora de produtos agropecuários em Feira de Santana, aí ele me ligou, já tinha ligado uma vez dois anos antes, ligou de novo e marcou uma reunião na casa de um assessor de Marcelinho ( o ex-deputado federal Marcelo Guimarães Filho, presidente do Bahia), na Ribeira, tudo escondido. Tivemos o primeiro contato, depois eles foram até a minha casa, aí já com Marcelo Guimarães (o pai), eu fiz minha proposta e nós fechamos.
247 - Qual foi sua proposta?
PC – Não posso revelar!
247 – E você calculou o impacto que sua decisão iria causar?
PC- Não, eu sou muito impulsivo, fui porque a proposta financeira era boa, não teve nada disso de querer ganhar do Vitória, claro que eu queria ganhar, estava torcendo pelo meu sucesso profissional. Quase nós ganhamos o Campeonato Baiano, no Barradão, ia ter torcedor do Vitória morrendo do coração, eu estava supertranquilo, assisti ao jogo andando na esteira da academia que tenho em casa.
247 - E o Paulo torcedor onde fica nessas horas?
PC – Não fica, eu estava num clube que poderia ganhar um campeonato, me dar prêmios, prestígio! Não torcia nem um pouco pro Vitória naquele momento. Se eu ficasse mais tempo no Bahia, o torcedor do Vitória ia me odiar, mas hoje eu fico feliz em saber que ele está mais próximo de mim, inclusive nas redes sociais. Hoje eu sou o único dirigente no Brasil que dá a cara pra bater nas redes sociais, eu vivo de fatos, não de argumentos!
247 – Sente falta de ir ao Barradão?
PC - Muita, não piso lá desde 2005, mas sinto muita falta de ir lá! Já ensaiei muitas vezes ir, meus amigos querem que eu vá, mas tem que tomar cuidado, vai que alguém pode querer me bater (risos)!
247 – Tem muito ladrão no futebol?
PC – Tem, ah, tem muito! No futebol tem muita gente que ganha dinheiro sem merecer ganhar!
247 – Você se considera um homem transparente?
PC – Sim, sempre fui, desde que comecei como engenheiro, fiz muita coisa boa, sempre fui muito querido por onde passei, dentro do Vitória eu sou muito querido, pode perguntar a quem for, sou reconhecido e admirado nas ruas!
247 – E a Copa do Mundo no Brasil vai dar certo?
PC - Vai, claro! Tem muito dinheiro envolvido nisso! Na Bahia, só o Vitória que tá comendo mosca neste processo, Alexi não tá sabendo tirar proveito disso.
Fonte: 247
Nenhum comentário:
Postar um comentário